À professora com carinho

19/10/13 À professora com carinho

Cliente assídua, são raros os dias que não a vemos na Real Centro. Vizinha estimada, mora e trabalha nas imediações da Rua da Penha. É sempre muito simpática e cortês, mas é discreta, de falar pouco. Sabendo qual é a sua profissão, fomos entrevistá-la para uma matéria sobre o 15 de outubro, o Dia do Professor. Sua visão sobre a Educação é positiva, por causa dos “vários projetos de qualidade em desenvolvimento nas escolas da nossa cidade”, diz ela. Perguntamos se está satisfeita e qual seria a sua motivação profissional. A resposta foi: “Se eu tivesse que recomeçar, escolheria ser professora. Sou realizada por apresentar as possibilidades da educação física escolar. Meu papel é ser uma facilitadora para o aluno encontrar significado em sua vida. E, embora nem sempre eu obtenha o resultado completo do trabalho durante o curso, porque educação é um processo, sei que plantei a semente e acredito na sua transformação”. Neste momento, sua emoção era visível. Mas, ainda assim, suas palavras não chegavam ao ponto de descrever seus próprios feitos. Sua postura comedida era tal que nem se deixou fotografar. Respeitamos. Mas, pensando no que ela disse, ficamos curiosos e fomos garimpar. Os fatos e depoimentos que colhemos sobre o trabalho da professora Íris Adriane Santoro Cardoso nos permitiram compreender melhor o que seria essa “semente” que ela planta há 26 anos. Encantados que ficamos com seus projetos – e convictos sobre a importância de todos os professores sobre o futuro de crianças, jovens e adultos – fizemos desta matéria a homenagem da Padaria Real a todos os educadores.

 

Maurício Massari iniciou suas atividades docentes na Faculdade de Educação Física de Sorocaba, a FEFISO, em 2002. Hoje é diretor da faculdade e ainda ministra as aulas de “Política Educacional no Brasil”. Seus alunos também são os de Íris desde 2008, quando ela assumiu suas aulas na FEFISO. Atualmente Íris ministra as disciplinas “Princípios e Fundamentos Gíminicos”, “Bases Pedagógicas de Inclusão em Educação Física” e “Prática de Ensino de Educação Física do 1º ao 9º ano do Ensino Fundamental”.
Desde que Íris iniciou suas atividades como professora da FEFISO, Massari observou que os alunos começaram a ligar os pontos entre as disciplinas de ambos. E um fato, em especial, vem chamando a sua atenção. Ele observou um crescente interesse pelas disciplinas da área escolar entre os alunos que optaram por seguir carreira em academias de ginástica, clubes e associações. “Eles já entraram na faculdade com foco nessas áreas e não mudaram de posição, mas eles se envolveram com os jogos, folclores e outras atividades específicas ao ambiente escolar. É um diferencial fazer o aluno se apaixonar por uma área que nunca esteve entre seus objetivos profissionais. E a Íris consegue isso”, explica Massari. “Os alunos também dizem que adoram a disciplina de Inclusão. E esta é uma valorização conseguida pela professora Íris, o que também é uma indicação de que o conhecimento transmitido por ela está sendo refletido”, completa.
“Um especialista nessa área faz muita diferença, principalmente pelo fato de que o ingresso de alunos com necessidades especiais está em crescimento. E nós ainda temos muito a desenvolver para receber adequadamente esses alunos. Portanto, se eu tenho que resolver algum problema sobre Inclusão é a Íris que eu chamo para me assessorar”, declara Massari.

 

Era noite de 24 de agosto, formatura da mais recente turma de educadores físicos da FEFISO. Íris, no púlpito, presa de emoção, perde as palavras para as lágrimas, ao celebrar a conquista de Vitor Rodrigo da Cruz, agora licenciado, aos 35 anos. Sim, sua idade está acima da idade média dos demais formandos. Mas seus caminhos para chegar ao diploma foram longos. Antes mesmo de provar ter capacidade de adquirir as habilidades necessárias para se tornar um educador físico, ele teve que dar conta de outras barreiras, além das suas próprias limitações. Vítima de um acidente na hora do parto, que provocou a falta de oxigenação em seu cérebro, ele convive até hoje com as sequelas, inclusive, nos movimentos de seu corpo. Por isso, quando se decidiu pela faculdade de Educação Física, as pessoas de seu convívio desacreditaram que sua profissão poderia ser justamente essa. Mas o pior a superar não seria a falta de incentivo. Para ele, nada foi mais árduo do que o preconceito. “Eu tive muitas pessoas que me excluíram na vida. Ter sido deixado de lado foi a maior das dificuldades que eu enfrentei”, revela.
Formado, conquistou um emprego como professor de musculação em uma academia. Sem dúvida, uma grande vitória, que já poderia ser considerada um final feliz.  Mas a luta continua. “Ainda outro dia, um aluno foi perguntar ao meu chefe como eu conseguiria dar aulas com a minha deficiência. E meu chefe respondeu que isso não iria atrapalhar em nada, porque o que eu sabia fazer era o necessário para trabalhar”, contou Vitor. “O Celso Marum, dono da academia onde trabalho, em Piedade, acreditou em mim. Sou muito grato a ele por isso”.
Sobre a emoção da professora na sua formatura, ele soube melhor do que ninguém interpretar: “Ela se preocupou em me incluir em todas as atividades. Não precisava de aulas especiais. Eu sempre estava incluído. Eu quero agradecer a Íris pelo apoio e carinho com que sempre me tratou”.

 

A professora Íris também planta suas sementes na Educação Infantil e no Ensino Fundamental, com crianças de dois a dez anos, e na Pós-Graduação, com profissionais que se especializam na “Pedagogia do Corpo e do Movimento”.
Devido a essa amplitude de idades, ela está habituada a receber respostas muito diferentes e destaca as das crianças: “Elas não têm a preocupação que temos nós, os adultos. As crianças criam suas próprias soluções corporais, ao invés de copiarem os movimentos. E isso favorece o ensino e a aprendizagem, já que elas trazem para o nosso ambiente a sua contribuição”, afirma Íris.
Esses dois segmentos de ensino trabalhados por Íris, no Objetivo Centro e na ESAMC, estão sob a coordenação da professora Graziela Santos, que vê em Íris a profissional mais qualificada hoje para conduzir a Educação Física nas duas escolas, com a vantagem de realizar seu trabalho com humildade. “Apesar de Íris trabalhar aqui há mais de vinte anos, ela recorre sempre que necessário à coordenação para apresentar suas questões e pedir uma opinião. Ela é mesmo uma referência de profissional, e de pessoa, extremamente ética”, afirma Graziela.
A escola ainda está comemorando a grande repercussão de um dos mais recentes projetos liderado por Íris este ano: a Festa Junina. “A partir de uma sugestão de pesquisa que eu apresentei ainda em dezembro do ano passado, Íris trabalhou todos os meses até o dia da festa, em 15 de junho, e transformou um projeto pedagógico em um evento com viés cooperativo, envolvendo toda a escola: professores, funcionários, alunos e pais”, conta Graziela.
O tema deste ano foi a música de Luiz Gonzaga. No dia do evento, com a participação do Trio Sinhá Flor, de forró pé de serra, as crianças cantaram, dançaram e entrevistaram as artistas. Os alunos estavam abrilhantados pela beleza e emoção do evento, num ápice de encantamento pela apresentação de uma grande obra que os envolveu por todo o semestre. Nas várias tarefas desse projeto todos fizeram suas colheitas, com os seguintes frutos: pesquisa e interpretação da vida e da obra de Luiz Gonzaga, seleção de repertório, montagem de coreografia, confecção de instrumentos musicais, gincana interdisciplinar e muitos ensaios de canto e dança. Ao som de “Vendedor de Caranguejo”, “Vida de Viajante” e “Dezessete e Setecentos”, no ritmo do xote, xaxado e baião, tocados com a zabumba, o triângulo e a sanfona, as crianças aprenderam que podem acender suas expressões individuais e grupais.
Estando as equipes devidamente constituídas e identificadas, com nomes e faixas, seguiu-se uma disputa sadia de arrecadação de prendas a favor de instituições beneficentes sorocabanas. Entre muitas roupas, sapatos e outros objetos de uso pessoal arrecadados, além de boas partidas de cabo de guerra e outras atividades físicas, as crianças somaram muitos pontos e mostraram até aonde podem chegar com a diversidade e a solidariedade. Mesmo aqueles alunos pouco afeitos aos esforços físicos se envolveram de alguma forma. E todos concluíram mais essa jornada aprendendo muito sobre a cultura brasileira, especialmente, a que herdamos do Rei do Baião.

   

 

 

Íris fez o bacharelado e a licenciatura em Educação Física. No mestrado, refletiu sobre a Educação Física Escolar e a Educação Ambiental. “De que maneira a criança, a educação física e o meio ambiente são trabalhados dentro do projeto pedagógico?”, era a indagação que motivava a sua pesquisa. Suas observações, na prática do dia a dia escolar, levaram Íris a perceber que “o aluno, na escola, muitas vezes, é separado em mente e corpo, como se isso pudesse acontecer. A mente recebe todas as informações consideradas importantes para o conhecimento, enquanto o corpo é esquecido, como se não trouxesse informações ou não reproduzisse as informações trabalhadas”. Buscando refletir sobre essa realidade usou a seguinte plataforma: “A educação ambiental é uma filosofia que trata do ser humano em sua totalidade, com sua história, características, sua cultura, seu corpo, suas ações e relações consigo mesmo e com o próximo”. E defendeu: “O saber, quando se trata do corpo, dos gestos, dá-se quando os alunos se envolvem na ação, partindo do ponto da criação ao realizá-los, sem imitações, mas efetuar esses gestos com suas características próprias. Quando as relações são incentivadas, o saber acontece com as trocas de informações e conhecimentos que passam a ser sentidas, vividas e valorizadas. No meu entender, isso é essencial ao estudo do cotidiano”.
Ao ler a sua dissertação, de onde colhemos as citações acima, percebemos o cuidado que ela teve em trazer à reflexão do tema diversos autores e pensadores, atendendo aos requisitos acadêmicos. Mas, no mesmo texto, ela também cita a importante contribuição que seus pais, artistas plásticos, deram a ela: “A cultura pela arte, pela música, pela leitura sempre foram os fios condutores das minhas raízes”. E menciona seu próprio aprendizado como acemista, em buscar o equilíbrio da mente, corpo e alma.
Coincidentemente, esta também foi a memória trazida por Cyrino Mantovani Júnior, Secretário Geral da Associação Cristã de Moços de Sorocaba, a ACM. Enquanto consultava seu banco de imagens no computador, recordava, por meio de algumas fotos, toda uma geração de jovens que viveu um momento particular na instituição. “Ainda na década de 80, quando criou seu primeiro corpo de líderes nos Estados Unidos, a ACM começou a trabalhar a liderança em todas as suas unidades pelo mundo. Nesse momento, nós já tínhamos a Íris integrada ao nosso departamento infantil, nas atividades de esporte e recreação. E ela foi convidada a desenvolver sua liderança”, conta Cyrino. “Naquela época, nós instituímos o seguinte procedimento: um jovem acompanhava um grupo de adolescentes; um adolescente, uma turma de pré-adolescentes; e um pré-adolescente, as crianças. Sempre tinha alguém desenvolvendo, sob orientação do professor, algumas tarefas de coordenação do grupo. E a Íris fez parte disso”, explica Cyrino.
Ele também recordou que, nos anos 90, quando Íris já era professora, seu irmão José Mantovani, colega de profissão dela, notava a capacidade de liderança de Íris com as crianças, ao vê-la trabalhando na quadra ao lado da sua sala de aula.
“Iris é realmente uma professora a ser homenageada. Ela é batalhadora, persegue seus objetivos e tem muito amor à profissão”, conclui Cyrino.